Boas Vindas!!

MOJUBÁ !
Temos o intuito de incentivar e discultir textos sobre as religiões de matriz africana entre outras questões que envolve essa temática, também ter um espaço para divulgação da atividades da Egbé que alcança o Ilê Axé Sangó e o Centro Cultural Ébano Brasil.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Fevereiro

ATIVIDADES DO MÊS DE FEVEREIRO NA EGBÉ ONÍ OMÓ ORISÁ SANGO

DIA 02 ( 20 horas) Amalá

Dia 05 ( 15 horas) Atendimento ao Público;

Dia 12 – Participação das Águas e Pilão de Osála na Egbé Oní Omó Orisá Odé ( Campo Grande MS)

Dia 19 – (15 às 17 horas) – Roda de Debate e Discussão sobre a dinâmica do Candomblé de Ketu



Espera-se que tais escritos desse mês possam contribuir de alguma forma com o crescimento pessoal e social de todos/as que lerem e refletirem sobre os assuntos aqui tratados.
Gostariamos também de saber a sua opinião, comentem os textos!
Boa leitura a todos/as (Babaloorisá João Bosco ty Sàngó)

Axé e Felicidades Babá!!!

(Imagem da Inauguração da Egbé Oní Òmorisá Sàngó)


Mesmo com um dia de Atraso.... Não Poderíamos deixa de prestar uma singela Homenagem ao Babaloorisá João Bosco ty Sàngó pelo seu aniversário dia 31 de Janeiro.

Agradecemos primeiramente a Sàngó por ter: cuidado do Senhor e te encaminhado para o Candomblé, Iluminado seu caminho até a construção da Egbé e "emprestando" as Yarobás da casa ty Odé (rsrs). Pois sem todos os esforços já feitos não seria possível esse começo, que sem o Senhor seria impossível.
Mesmo as palavras e gestos mais simples que sempre fazem a diferença... Obrigada pelo carinho, consolo, atenção, alegria, luz e Axé!
Se fosse possível narrar cada episódio em que o Sr. esteve presente em nossas vidas seriam várias páginas de muitas risos e choros, e o mais importante de União.
Estamos aqui para relembra-lo da sua Importância em nossas vidas e desejar que Sàngó lhe retribua tudo o que tem feito pela Egbé!

Att.
Rombona,
João,
Guará,
Welligton,
Ester.

Lenda do Mês - Ossaim




Ossaim era o nome de um escravo que foi vendido a Orunmilá. Um dia ele foi à floresta e lá conheceu Aroni, que sabia tudo sobre as plantas. Aroni, o gnomo de uma perna só, ficou amigo de Ossaim e ensinou-lhe todo segredo das ervas.

Um dia, Orunmilá, desejoso de fazer uma grande plantação, ordenou a Ossaim que roçasse o mato de suas terras.

Diante de uma planta que curava dores, Ossaim exclamava: “Esta não pode ser cortada, é a erva que cura as dores”. Diante de uma planta que curava hemorragias, dizia: “Esta estanca o sangue, não deve ser cortada”.Em frente de uma planta que curava a febre, dizia: “Esta não, porque refresca o corpo”.

E assim por diante.

Orunmilá, que era um babalaô muito procurado por doentes interessou-se então pelo poder curativo das plantas e ordenou que Ossaim ficasse junto dele nos momentos de consulta, que o ajudasse a curar os enfermos com o uso das ervas miraculosas. E assim Ossaim ajudava Orunmilá a receitar e acabou sendo conhecido como o grande médico que é (In: PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás. Cia das Letras, 2002. p.152).

Por uma Consciência Negra dos religiosos/as de Matriz Africana

(Fámilia da casa de Odé -MS- e amigos na casa de Xangô)

Ter a certeza de que a nação brasileira é formada com a participação de três grupos étnicos, ou seja, ameríndios, europeus e africanos isto já um ponto que não provoca divergências entre nós brasileiros. Porém, ao afirmamos que os grupos tanto ameríndios quanto africanos contribuíram enormemente com a maneira de louvar e ser do povo brasileiro, ainda é algo que causam incômodos a alguns ou muitos de nós. Visto que ainda é comum perceber a participação especialmente dos povos do continente africano apenas na culinária, capoeira, samba. Não que isso seja menor ou maior. Entretanto se faz necessário termos a percepção de que uma das grandes contribuições do povo africano foi sem sombra de dúvidas com o seu arcabouço religioso.


É inegável que a maneira de louvar do povo africano diferia em tudo da forma de louvar dos colonizadores europeus, seja português, espanhol, inglês, francês e holandês.

No caso brasileiro, os colonizadores portugueses eram de formação católica apostólica romana de tudo fizeram para converter o povo negro a sua fé. Porém, esses africanos que para cá vieram usando de astucia e perspicácia também de tudo fizeram para não entregar-se ao catolicismo. Mesmo batizado com nome de santo católico, buscou de formar camufladas continuar louvando e crendo em seus Orisás, Inkices e Voduns. Perceberam a fragilidade da doutrina católica e disfarçaram uma suposta conversão nos santos católicos para depois se organizarem-se nas irmandades negras.

Das irmandades negras a organização dos primeiros Ilês Asés no final do século XIX foi um passo, lógico que nem tudo foi um mar de rosas. Perseguições de forças militares, diversas formas de desrespeitos aos cultos afros, é o que se tem noticias pelo Brasil afora.

Porém, o que se percebe é que a custa de muita luta e inteligência do povo negro as religiões de matriz africana estão vivas e presente na cultura brasileira. Cumpre a nós religiosos/as e simpatizantes das religiões afro na atual conjuntura continuarmos a luta dos nossos/as ancestrais. Que buscaram antes de tudo preservar crenças milenares de sua terra natal em território brasileiro.

Hoje não precisamos mais disfarçar nossa fé e nossa forma de louvar, visto que a Constituição Federal de 1988, garante em seu artigo5º, Inciso VI que: “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”.

Conclamamos a todos/as sacerdotes e sacerdotisas de matriz africana que faça de dos seus Ilés Asé além de espaço religioso, um ambiente de luta e resistência contra toda e qualquer forma de opressão e injustiça, e acima de tudo lugar de conscientização dos valores culturais dos nossos/as ancestrais negros/as.

Se valeu a luta dos/as nossos/as ancestrais escravizados/as nas terras brasileiras, hoje vale a nossa, por respeito e dignidade humana. Se no passado a luta não foi em vão, hoje nossa luta é por garantir a pratica do inciso VI da Constituição Federal do Brasil.

Entre outros fatos marcantes do mês de fevereiro dois chama atenção, um deles é o nascimento da antropóloga, intelectual, política, professora Lélia Gonzalez (1935). Seus escritos, simultaneamente permeados pelos cenários da ditadura política e da emergência dos movimentos sociais, são reveladores das múltiplas inserções e identificam sua constante preocupação em articular as lutas mais amplas da sociedade com a demanda específica dos negros e, em especial das mulheres negras. Os livros produzidos foram “Lugar de Negro” (1982) (com Carlos Hasenbalg), “Festas Populares no Brasil”. As demais referências da produção de Lélia Gonzalez são papers, comunicações, seminários, panfletos político-sociais, partidários, engajados, sempre de muita reflexão.

Seus escritos e palestras, atuando contra o racismo e outras formas de discriminação, contribuíram para a formação acadêmica e cidadã de muitos dos que com ela conviveram, considerando que atuou nas universidades brasileiras por mais de 30 anos, até seu falecimento. Em seus últimos dias, foi eleita, por reconhecimento de sua competência, chefe do Departamento de Sociologia, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Quando faleceu, aos 59 anos, ainda tinha muito a fazer, a escrever, a falar/comunicar/ensinar. (WWW.wikipedia.org)

Outro fato que marca este mês é morte de Carolina Maria de Jesus ocorrido no dia 14 de fevereiro de 1977. Carolina Maria de Jesus nasceu em Sacramento, interior de Minas Gerais, em 14 de março de 1914. Estudou até o segundo ano primário. Migrou para São Paulo em 1947, indo morar na extinta favela do Canindé, na zona norte. Nessa cidade, trabalha como doméstica, não se adaptando, contudo, a esse tipo de trabalho. Passa a trabalhar como catadora de papel, trabalho que realiza até sua morte, em 1977. Carolina nunca se casou e teve três filhos. Até aqui, temos uma história que poderia ser a de qualquer outra mulher brasileira pobre: negra, semi-alfabetizada, favelada, como tantas que existem pelo Brasil afora, não fosse por um detalhe – a paixão de Carolina Maria de Jesus pela leitura e pela escrita. Carolina dividia seu tempo entre catar papel,cuidar dos filhos e escrever.
Em meados da década de 1960, o jornalista Audálio Dantas, ao visitar a favela do Canindé para escrever uma matéria sobre a expansão do local, conhece Carolina, que lhe entrega os manuscritos de seu diário. Surge então seu primeiro livro, Quarto de Despejo, livro-diário em que relata a fome cotidiana, a miséria, os abusos e preconceitos sofridos por ela, seus filhos e outros moradores da favela.
Quarto de Despejo foi em agosto de 1960 e editado oito vezes no mesmo ano; mais de 70 mil exemplares foram vendidos na época. Nos cinco anos seguintes, Quarto de despejo foi traduzido para 14 idiomas e alcançou mais de 40 países.
Além de Quarto de Despejo, Carolina também publicou Casa de Alvenaria (1961), Provérbios e Pedaços da fome (1963) e Diário de Bitita (publicação póstuma).
Outro traço particular de Carolina Maria de Jesus é a sua consciência política e social. Passagens de seus livros mostram que a escritora estava sempre a par do que acontecia não só em São Paulo, mas também em outros Estados, provavelmente por meio de notícias lidas em jornais que via nas bancas.
Apesar de todo o sucesso de seu primeiro livro, as publicações seguintes da autora não tiveram êxito, e Carolina caiu no esquecimento. Pobre, morreu na casa em que morava com o filho mais velho, no bairro de Parelheiros, em São Paulo, no dia 13 de fevereiro de 1977. (http://www.acervos.ims.uol.com.br/)

A vida e os escritos dessas duas personalidades demonstra a obstinação de mulheres que sonharam, lutaram e tiveram consciência do seu papel em uma sociedade preconceituosa e racista. Que a vida dessas mulheres nos sirva de exemplo para continuarmos lutando um país mais justo onde todos/as sejam respeitados/as na sua forma de ser, pensar e agir.

O artigo deste mês intitulado Religiosidade Negra: Resistência Político-Cultural, retirado da obra Para Entender o Negro no Brasil de Hoje: História, Realidades, Problemas e Caminhos, de autora é de Kabengele Munanga & Nilma Lino Gomes no qual buscam de forma didática analisar as religiões de matriz afro como espaço de resistência político cultural no Brasil .

Já a lenda do mês nos faz refletir sobre a importância das ervas no contexto religioso afro, para tanto recorreu-se à obra de Reginaldo Prandi, Mitologia dos Orixás, no qual esse autor descreve uma magnífica lenda do Orisá Osain para destacar o valor fundamental que as ervas e plantas exercem para os praticantes do Candomblé e para a farmacopéia tradicional. A referida lenda pode ser usada por professores/as de Ensino Fundamental e Médio para discutir questões ambientais em sala de aula.

Por fim, porém não menor importante postou-se um box, no qual destaca 10 Maneiras de Contribuir para Uma Infância sem Racismo. Dessa forma a Egbé Ìní Omòrisa Sàngó e a Associação Cultural Ébano Brasil quer abraçar a campanha desencadeada pela UNICEF na luta por infância sem racismo.


Resistência


RELIGIOSIDADE NEGRA: RESISTÊNCIA POLÍTICO-CULTURAL





A religiosidade negra é rica e variada. No Brasil, os nossos ancestrais africanos enriqueceram a nossa cultura com diferentes expressões e formas de se relacionar com o mundo sobrenatural.

A relação com o mundo que podemos chamar de sobrenatural pode ser considerada como um universo do humano. Todos os grupos sociais, em diferentes épocas e espaços, constroem formas de se relacionar com o mundo desconhecido, na busca de caminhos e explicações que lhes ajudem a entender o enigma da vida e da morte, o sentido de ser e estar no mundo.
Homens e mulheres criam artefatos e constroem códigos, regras, leis que lhes possibilitem garantir a sobrevivência e a manutenção de seu grupo. Cada grupo produz sua cultura de acordo com suas necessidades e possibilidades, portanto não há como considerar uma expressão cultural superior ou inferior, melhor ou pior do que a outra, o mesmo se aplica à religiosidade. Essa dinâmica própria da cultura acontece de formas variadas, de acordo com o grupo cultural, contexto histórico, político e social em que se vive. Isso pode nos ajudar a entender o porquê de tantas expressões religiosas no mundo.

Tanto a religiosidade negra como outras expressões religiosas devem ser compreendidas como formas construídas, no interior da cultura, de estabelecimento de elos com o Criador, com o que está além do que costumamos considerar como mundo racional. Devem ser vistas como “experiências religiosas” e não como mero “credo religioso”. Tomadas como uma produção da humanidade, fruto das diversas formas de se relacionar com a natureza, busca dar explicações para questões que afetam a vida de todos/as e do modo como se estabelecem relações entre as pessoas e delas com o mundo.

Em contexto de dominação e opressão, os grupos constroem processos de resistência religiosa, que são também parte da cultura. A deportação dos/as africanos/as e a imposição do regime escravista acarretaram um processo de ressignificação mítico-religiosa, de atribuição de outros e novos significados às coisas e ao mundo que os rodeiam, por parte de nossos ancestrais com suas divindades e crenças. Esse é um processo comum nas situações de colonização ou dominação político-cultural. Os povos ditos dominantes e dominados, ao se encontrarem (ou “se chocarem”) passam por mudanças culturais que afetam a todos/as, de variadas formas. Porém, é muito comum pensarmos que somente os ditos “dominados” ou “colonizados” recebem interferências dos outros grupos ou modificam seus costumes, crenças e valores em função do contexto de opressão. Na realidade, as coisas não são bem assim. O processo cultural é dinâmico e a força da matriz religiosa é um fator muito importante na construção das identidades culturais.

Compreender a tradição religiosa afro-brasileira, recontar a história do povo negro na África pré-colonial, pós-colonial e, em nosso caso especifico, durante e após o regime escravista brasileiro significa compreender um passado que muitos de nós somos desconhecidos. Este passado e o modo como foi construído interfere e interferirá em nossas crenças e nas formas de inserção e vivência do mundo atual, seja enquanto negro, branco e indígenas brasileiros.

No Brasil, algumas tradições religiosas de matriz africana tornaram-se mais destacadas do que outras, entre elas pode-se citar o candomblé e a umbanda.

O CANDOMBLÉ

O candomblé e demais religiões afro-brasileiras tradicionais formaram-se em diferentes áreas do Brasil, com variados ritos e com nomes locais derivados de tradições africanas diversas: candomblé na Bahia, xangô em Pernambuco e Alagoas, tambor de mina no Maranhão e Pará, batuque no Rio Grande do Sul.
De acordo com Reginaldo Prandi (1996) a organização das religiões negras no Brasil deu-se no curso do século XIX. Uma vez que as últimas levas de africanos deportados durante o período final da escravidão foram fixadas, sobretudo nas cidades e em ocupações urbanas, os africanos desse período puderam viver um processo de interação que não conheceram antes. Nas cidades, estabeleciam um maior contato uns com os outros, com maior mobilidade e, de alguma maneira, com certa liberdade de movimento. Este fato propiciou condições sociais favoráveis para a sobrevivência de algumas práticas religiosas africanas, com a formação de grupos de culto organizados.

Até o final do século XIX tais religiões estavam consolidadas, mas continuavam a ser religiões étnicas dos grupos negros descendentes dos escravos. A partir dos anos 60 do século XX, as pessoas de origem não-africana começaram a professar o candomblé. Assim, o candomblé deixou de ser uma exclusiva do segmento negro, passando a ser uma religião de todos/as aqueles/as que se identificam com seus rituais, normas e cultos.

(...)

Sendo religião de matriz africana e praticada inicialmente somente pelos grupos negros, o candomblé sofreu (e ainda sofre) todas as interferências do racismo existente em nosso país. Quem de nós já não ouviu comentários de que as religiões afro-brasileiras significam algo espiritualmente negativo? Ou que não são religiões, mas sim, “seitas malignas”?

Segundo o antropólogo Vagner Gonçalves da Silva (1994), no candomblé, a forma de cultuar as divindades (seus nomes, cores, preferências por alimentos, louvações, cantos, dança e música) foi distinguida pelos negros segundo modelos de rito chamados de nação. Esse tipo de denominação é uma alusão significativa de que os terreiros, além de tentarem reproduzir os padrões africanos de culto, possuíam uma identidade grupal (étnica) como nos reinos da África.

Segundo esse autor, os sudaneses foram os grupos africanos que predominaram no século XIX, época em que as condições histórica, sociais e urbanas de perseguição aos cultos diminuíram em relação ao período colonial, no qual os povos bantos foram majoritários. Devido a esses fatores, a estrutura religiosa dos povos de língua ioruba legou ao candomblé sua infra-estrutura de organização, influenciada pelas contribuições de outros grupos étnicos. Desse processo, resultaram os dois modelos de cultos mais praticados o Brasil: o rito jeje- nagô e o angola.

O rito jeje-nagô abrange as nações nagôs ( keto, Ijesá, etc) e as jejes ( jeje-fon e jeje-marrin). Tal rito enfatiza o legado das religiões sudanesas. Nos terreiros onde esse rito é praticado geralmente cultuam-se orixás (divindades representadas essencialmente pela natureza), voduns, erê (espíritos infantis) e caboclos (espíritos indígenas)

Mas, as casas de culto (Ilê Axé) não são todas iguais e têm opiniões diferentes sobre a “originalidade e fidelidade africanas” do seu culto e de suas práticas. Sendo assim, os ilês onde prevalece o culto aos orixás são popularmente conhecidos como candomblé ketu; os de culto aos voduns são chamados de candomblé jeje.

No culto de natureza ketu os atabaques (instrumentos de percussão) são tocados com pequenas varinhas, canta-se para os orixás principalmente em dialeto africano (yorubá) e segundo os seus ritmos de som e dança característico.

Já o rito angola abrange principalmente o cerimonial congo e cabinda e procura enfatizar a herança das religiões dos povos bantos. Essa nação (...) cultua as divindades bantos, denominadas de inquices, os vunjes (espíritos infantis) e os caboclos. Os templos dessa nação são chamados de candomblé de angola e, durante o culto, os atabaques são tocados com as mãos. Sendo estes cânticos na língua banta. Algumas casas de que tem nessa pratica seu culto mescla o banto com o português.

Devido ao grande fluxo e dispersão dos povos bantos no Brasil, o candomblé de angola espalhou-se por quase todo o país. Em alguns estados, em fins do século XIX, essa prática religiosa que sempre esteve aberta às influências católicas e ameríndias, recebeu nomes diferentes como cabula no Espírito Santo, macumba, no Rio de Janeiro, e candomblé de caboclo, na Bahia. É claro que em muitos lugares esses cultos também foram marcados pelas influências do rito jeje- nagô e, nesse caso, não pode-se afirmar ao certo qual dessas foi predominante. (...) (In: MUNANGA, Kabengele & GOMES, Nilma Lino. Para Entender o Negro no Brasil de Hoje: História, Realidades, Problemas e Caminhos. Coleção Viver e Aprender – Educação de Jovens e Adultos 2º Segmento de Ensino Fundamental. Ed. Global e Ação Educativa, 2004)

Dez maneiras de contribuir para uma infância sem racismo




1. Eduque as crianças para o respeito à diferença. Ela está nos tipos de brinquedos, nas línguas faladas, nos vários costumes entre os amigos e pessoas de diferentes culturas, raças e etnias. As diferenças enriquecem nosso conhecimento.

2. Textos, histórias, olhares, piadas e expressões podem ser estigmatizantes com outras crianças, culturas e tradições. Indigne-se e esteja alerta se isso acontecer – contextualize e sensibilize!

3. Não classifique o outro pela cor da pele; o essencial você ainda não viu. Lembre-se: racismo é crime.

4. Se seu filho ou filha foi discriminado, abrace-o, apoie-o. Mostre-lhe que a diferença entre as pessoas é legal e que cada um pode usufruir de seus direitos igualmente. Toda criança tem o direito de crescer sem ser discriminada.

5. Não deixe de denunciar. Em todos os casos de discriminação, você deve buscar defesa no conselho tutelar, nas ouvidorias dos serviços públicos, na OAB e nas delegacias de proteção à infância e adolescência. A discriminação é uma violação de direitos.

6. Proporcione e estimule a convivência de crianças de diferentes raças e etnias nas brincadeiras, nas salas de aula, em casa ou em qualquer outro lugar.

7. Valorize e incentive o comportamento respeitoso e sem preconceito em relação à diversidade étnico-racial.

8. Muitas empresas estão revendo sua política de seleção e de pessoal com base na multiculturalidade e na igualdade racial. Procure saber se o local onde você trabalha participa também dessa agenda. Se não, fale disso com seus colegas e supervisores.

9. Órgãos públicos de saúde e de assistência social estão trabalhando com rotinas de atendimento sem discriminação para famílias indígenas e negras. Você pode cobrar essa postura dos serviços de saúde e sociais da sua cidade. Valorize as iniciativas nesse sentido.

10. As escolas são grandes espaços de aprendizagem. Em muitas, as crianças e os adolescentes estão aprendendo sobre a história e a cultura dos povos indígenas e da população negra; e como enfrentar o racismo. Ajude a escola de seus filhos a também adotar essa postura. (WWW.unicef.org.br)

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

E O ANO NOVO CHEGOU

E o Ano Novo Chegou!

Babaloorisá João Bosco Ty Sango

Egbé Oní Omórisa Sango-Associação Cultural Ébano Brasil



Todos os finais de ano e início de outro sempre fazemos promessas de que tudo vai ser diferente do que o ano anterior. Cremos que mudanças podem acontecer, porém não precisamos esperar o final de cada ano para buscar mudanças e revisão de nossas vidas. Entendemos que essas transformações devam ocorrer a cada dia do ano, sem, contudo ficarmos alardeando tais fatos.

Se cremos que Orisá está em nossa vida em todos os dias do ano, em todas as horas de nossas existências, porque então esperarmos o limiar do ano novo para fazermos nossas reflexões e revisão de vida? É exatamente nesse cotidiano que deveremos refletir acerca de nossas atitudes e ações neste mundo. Mudanças devem ocorrer a cada novo amanhecer e reflexão a cada entardecer todos os dias do ano. Só assim conseguiremos apreender tanto das agruras quanto das vitórias o caminhar de cada um de nós aqui no Ayê.

Temos muito a rememorar e celebrar a cada janeiro, entre outras datas, comecemos pelo primeiro dia do mês Dia Mundial da Paz e Independência do Haiti (1804).

Recordemos que paz é uma construção diária. E é impossível querermos buscar a paz sem, contudo, estarmos em paz conosco mesmo, por isso gostaríamos de conclamar a todos/as para que primeiro estejamos em paz conosco mesmo para depois estender essa harmonia e equilíbrio àqueles/as que esta junto conosco. Lembrando que nem sempre quem está conosco seja isento de defeitos, porém é necessário que esquadrinhemos os seres humanos e acima de tudo notemos que somos humanos e como tal possuímos defeitos e qualidades. Portanto, vejamos mais as qualidades do que os defeitos de cada um/a. Percebamo-nos como humanos em processo de construção, pois cremos que não estamos prontos e acabados, construímos com erros e acertos diários.

Como referência à Independência do Haiti, 1º de janeiro (1804) o que podemos afirmar é que foi um período de conflito brutal na colônia de Saint-Domingue (América Central), levando à eliminação da escravidão e à independência, como a primeira república governada por pessoas de ascendência africana. Apesar de centenas de rebeliões ocorridas no Novo Mundo durante os séculos de escravidão, apenas a revolta de Saint-Domingue, que começou em 1791, obteve sucesso em alcançar a independência permanente, sob uma nova nação. A Revolução Haitiana é considerada como um momento decisivo na história dos africanos no novo mundo. (WWW.wikipedia.org/).

Este fato deixa evidente que nós afrodescendentes no Novo Mundo não esperamos as benesses da elite política para fazer acontecer a tão sonhada libertação. Que exemplo esse fato pode trazer para a atualidade? Sem dúvida, é o poder de articulação de um povo que com garra e perspicácia ousaram a buscar a autonomia e a liberdade.

Merece destaque o dia 09 de janeiro (2003), dia em que o Presidente Luis Inácio Lula da Silva, promulgou a Lei Federal 10.639/03, que alterou a Lei de Diretrizes e Base da Educação brasileira, da qual impõe que todas as escolas de ensino fundamental e médio deste país incluam em seus currículos o ensino de História e Cultura e Africana e Afrobrasileira. Não podemos negar que isso é um grande avanço. Porém só a lei pela lei de nada adianta, é necessário que todos/as nós lutemos para realmente aconteça no cotidiano escolar a prática da referida lei. Especialmente no que se refere às questões de Cultura e Religião de Matriz Africana, e suas influências na formação desta nação.

Já o dia 25 deste mês é o dia que marca o início da Revolta dos Malês (1835) em Salvador (BA) entre os dias 25 e 27 de janeiro de 1835. Os principais personagens desta revolta foram os negros islâmicos que exerciam atividades livres, conhecidos como negros de ganho (alfaiates, pequenos comerciantes, artesãos e carpinteiros). Apesar de livres, sofriam muita discriminação por serem negros e seguidores do islamismo. Em função destas condições, encontravam muitas dificuldades para ascender socialmente.

Os revoltosos, cerca de 1500, estavam muito insatisfeitos com a escravidão africana, a imposição do catolicismo e com o preconceito contra os negros. Portanto, tinham como objetivo principal à libertação dos escravos. Queriam também acabar com o catolicismo (religião imposta aos africanos desde o momento em que chegavam ao Brasil), o confisco dos bens dos brancos e mulatos e a implantação de uma república islâmica em Salvador. (www.suapesquisa.com).

Independente do resultado desta revolta é preciso que percebamos essa luta de negros islamizados à busca de reconhecimento social e cultural em um momento que a Igreja Católica de tudo fazia para impor suas normas, regras e doutrinas.

Óbvio de que existem outros fatos relevantes que marcam o mês de janeiro, porém procuramos dar destaque a esses por serem realizados por representações afro. Este blog deseja contribuir com o processo de implementação da Lei Federal 10.639/03, postando a cada mês artigos sobre a dinâmica das religiões de matriz africana no Brasil e outras temáticas de cunho informador e formador. Temos a convicção que isso não é muito, porém cada qual deve fazer sua parte e a Egbé Oní Omórisa Sangò e a Associação Cultural Ébano Brasil através deste blog está tentando fazer isso.

Para esse mês trazemos artigo da pesquisadora e religiosa de matriz africana, Professora Mestre e Yarobá d’Osùn Ângela Maria dos Santos, intitulado Religiões Afro-Brasileira, no qual analisa com conhecimento de causa a religiosidade afrobrasileira no contexto nacional destacando o nascedouro do culto de Umbanda no Brasil. Trazemos ainda uma lenda, retirada da obra de Adilson Martins. Nesta lenda o autor destaca como nasceu o Jogo de Búzios e sua importância para a religião dos Orisás.

Queremos desejar a todos/as os/as leitores desse blog um bom ano novo, que Orisá esteja em nossas existências a cada minuto de nossas vidas. Desejamos boa leitura e que estes escritos sirvam para nossa reflexão e ação na busca de uma sociedade que respeite as diferenças e os diferentes.

FELIZ 2010 a todos/as.





















RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS



Ângela Maria dos Santos, mestre em Educação pela UFMT,Yarobá da Egbé Oní Omórisá Odé – Campo Grande/MS



Você sabia que há diferença entre religiosidade e religião? A religiosidade é uma maneira de se relacionar com o mundo invisível (os deuses, os espíritos, os antepassados). Já a religião é uma instituição social, quase sempre com livro sagrado, dogmas, e hierarquia entre os sacerdotes e entre estes e aqueles que creem.

Assim, só se pode ter uma religião de cada vez, por isso, toda religião é exclusiva. Já religiosidade, podemos ter, ao mesmo tempo, várias. Esta, ao contrário daquela, é inclusiva. Então é possível ao crente tanto cultuar os orixás sem ter de renunciar a outras crenças.

Segundos Santos (2009) qualquer religião que o negro pratique tem como marca fundamental a falta de pretensão à religião única, aquela a que sirva a todos os homens, em todos os lugares. Cercada de muitos preconceitos por falta de conhecimento e, particularmente, em decorrência do etnocentrismo, as religiões afro-brasileira sofreram grandes perseguições e, ainda hoje, continuam sendo alvo de desrespeito por parte de algumas igrejas cristãs. Fato é que as históricas perseguições ao candomblé ocorreram pelo medo de que estas religiões propiciassem uma forte organização da população negra contra as situações de opressões e desigualdades vivenciadas por eles. As religiões de matrizes africanas no Brasil fazem, inegavelmente, parte do nosso panteão cultural, constituindo- se de um dos elos mais fortes com a África. Em todas as partes do Brasil, é frequente encontrar pessoas de todas as raças irmanadas pelo culto aos Orixás.

Um aspecto importante a ser ressaltado é o significado da matriz africana no que se refere à ideia da dimensão de ser humano na dinâmica da relação com o sagrado que permaneceu na recriação religiosa pelos negros no Brasil. Roger Bastide (2001) registrou muito bem o que é essa dimensão do humano e do sagrado na visão africana. Para o autor, as civilizações africanas são civilizações simbólicas, nas quais os mortos e os vivos constituem uma mesma comunidade e a morte não é considerada senão uma passagem para um estágio Superior; assim, o ancestral poderá voltar ao mundo dos vivos, reencarnando-se no seu bisneto. Através dos sonhos, das confrarias de máscaras, dos relicários, a comunicação nunca é interrompida entre os dois mundos. Que continuam – embora por meios diferentes a dialogar incessantemente, a ajudar-se mutuamente, a controlar-se para o bem comum de uns com os outros (p. 09).
É no Candomblé que essa matriz terá maior preservação, aproximando as práticas religiosas africanas e sua filosofia. O termo candomblé é uma denominação utilizada para nomear as religiões afro-brasileiras com fortes influências dos grupos linguísticos

yorubá e bantu. Essa reinvenção deu-se na Bahia a partir dos nagôs e jejes. Pois na África cada região e/ou etnia cultuava um orixá específico, com nomes diferentes. Aqui, deu-se a junção dessas divindades. Contudo, ocorreu uma distinção organizativa conforme a predominância da influência dos grupos étnicos na realização dos ritos. Com essa distinção, caracterizaram-se uma divisão mais especificamente em Candomblés de nações: Keto (com influência maior dos grupos linguísticos yorubá), Angola (de influência dos grupos lingüísticos bantus) e Jeje (predominância do grupo étnico da região de Daomé).

Vejam que essa distinção tinha uma intencionalidade, a de construir uma identidade para os cultos, de forma que na organização do Candomblé existe uma distinção entres os ritos, conforme a origem étnica dos negros africanos (yorubás, bantos e jejes), ocorrendo diferenças nas denominações das divindades, representações de cores, vestes litúrgicas, alimentos, cânticos e danças, caracterizando, assim, um zelo na recriação da religião nos terreiros de Candomblés brasileiros com a identidade étnica, como na África (SILVA, 2005).

De maneira geral, a religião tem por base o culto às divindades de origem africana denominadas de Orixás (para os nagôs), Inkices (para os bantos) e Voduns (para os jejes). Toda essa forma organizacional de culto denomina-se Candomblé.

Os Orixás são divindades relacionadas à criação do mundo que, conforme a mitologia africana possuem características e domínios da natureza diferenciados, preferências alimentares, o que resulta a formas de louvação e de cores que os representam na religião, também com especificidades. Essa característica de culto é denominada de Candomblé.

Segundo a mitologia iorubana, a criação do mundo foi realizada por Olorum, o deus supremo, criador de todas as coisas, seres vivos e dos Orixás, ficando a cargo destes os domínios da natureza no mundo. Assim, cada orixá é responsável por um elemento da natureza.

É importante enfatizar que as tradições religiosas africanas se misturaram entre si e sofreram influências externas. Por isso, dizemos que a religião foi recriada aqui no Brasil. Antes dessa forma de organização religiosa dos negros, conhecida até hoje, as manifestações religiosas resumiam-se aos chamados Calundus, uma atividade religiosa, possivelmente de influência banto, que realizavam rituais de limpeza espiritual e de cura; nesse espaço desenvolviam experiências religiosas oriundas de práticas africanas e seus conhecimentos farmacológicos.

Conforme Silva (2005), até o século XVIII os calundus era o culto africano mais ou menos organizado que antecederam os terreiros de Candomblé no século XIX. Também, afirma ele, que o uso do mesmo espaço para a moradia dos negros e para os cultos dos seus deuses foi uma característica dos primeiros templos das religiões afro-brasileiras e que possibilitou a existência dos calundus sob a adversidade do regime de escravidão. Característica que a maioria dos templos preserva até hoje (p. 45). Registrar nas culturas religiosas africanas é que, diferentemente das religiões cristãs, não existe a figura do diabo.

Alguns desavisados acusam o Candomblé de fazer culto ao diabo, sendo isso uma inverdade, de enorme inconsistência. Na história das religiões afro-brasileiras identifica-se a experiência religiosa africana de se relacionar com o sagrado que se espalhou com variadas denominações por toda a região do Brasil.

O CULTO DE UMBANDA NO BRASIL

Tida como uma religião genuinamente brasileira, a Umbanda traduz muito bem o sincretismo da religião brasileira. Sua origem dá-se nas décadas de 1920 e 1930. Nessa religião são cultuadas entidades africanas, os espíritos ameríndios, santos católicos e outros. Segundo Silva (2005, p. 111), “a princípio caboclos e pretos velhos, representando os espíritos dos índios brasileiros e dos escravos africanos, tornaram-se centrais na nova religião que se formava, proclamando sua missão de irmanar todas as raças e classes sociais que formavam o povo brasileiro”. Prandi (2003) observa que “as religiões afro-brasileiras se construíram sincréticas, estabelecendo paralelismos entre divindades africanas e santos católicos, adotando o calendário de festas do catolicismo, valorizando a frequência aos ritos e sacramentos da igreja” (p. 15-16). Para ele, a formação das primeiras religiões afro-brasileira de forma sistematizada deu-se no século XIX, período em que o catolicismo dominava as atividades religiosas e tinha forte relação com o Estado. Pois, para se viver no Brasil, mesmo sendo escravo, e principalmente depois, sendo negro livre, era indispensável, antes de tudo, ser católico. Por isso, os negros que recriaram no Brasil as religiões africanas dos orixás, voduns e inquices se diziam católicos e se comportavam como tais. Além dos rituais de seus ancestrais, frequentavam também os ritos católicos. Continuaram sendo e se dizendo católicos, mesmo com o advento da República, quando o catolicismo perdeu a condição de religião oficial (p. 15). Assim, as formas sincréticas foram construídas nas religiões afro-brasileiras.

A mais sincrética de todas é a Umbanda, surgida no Rio de Janeiro em início do século XX, possivelmente seja uma reminiscência da antiga cabula, de forte influência banta. Enfim, a Umbanda utilizando da mestiçagem religiosa, misturando as práticas católicas como uso de imagens e culto aos santos, correspondendo-os com os orixás nagôs, incluindo a pajelança indígena, o uso de práticas espíritas/espiritismo (embora se tenha conhecimentos que os bantos tinham crença que os espíritos dos mortos poderiam ser contatados através de práticas mediúnicas).

A Umbanda se estruturou e se espalhou para todas as regiões do país, trazendo em seu culto através da possessão, espíritos de caboclos, pretos velhos, boiadeiros, marinheiros, baianos, pomba-giras, exus espírito (difere do Exu orixá que se trata de uma divindade) e outros. A considerável aceitação da Umbanda muito possivelmente se dê por ela reunir elementos cristãos como rezas de terços, imagens de santos e participação dos ritos religiosos das religiões católicas. Por isso, muitos críticos a percebem como grande expressão da política de branqueamento ocorrido no Brasil, tanto pelo formato e doutrina da religião, considerando que seu nascimento ocorreu num momento histórico em que fervilhava a política de branqueamento na sociedade brasileira.

A religião afro-brasileira está presente em diversas regiões do Brasil, com variedades de nomes, conforme as influências africanas ou formas sincréticas adquiridas na mestiçagem cultural. Inicialmente, a religião de influência africana era frequentada por maioria de negros. Contudo, sabe-se que nos momentos de grandes atribulações os senhores escravistas recorriam às crenças e práticas religiosas de origem africanas para resolverem seus problemas. Porém, é na atualidade que o número de não-negros que assumem e se identificam com o culto afro-brasileiro torna-se bastante significativo.







LENDA DO MÊS:

O JOGO DE BÚZIOS

Todo mundo sabe que Osùn foi a primeira esposa de Orunmilá e que também foi a primeira Iyalorisá, sacerdotisa do culto de Orisás.

Naquele tempo, Osùn já havia feito o seu primeiro Iyaô, homem de qualidades excepcionais e que deveria substituí-la na direção do culto, já que chegava o tempo em que todos os Orisás, por ordem de Olòdumare, deveriam retornar ao Orun, deixando a Terra sob a responsabilidade dos seres humanos.

Orunmilá, marido de Osùn, era como ainda é o dono e senhor do oráculo de Ifá. Havia criado um culto no qual uma casta sacerdotal, composta exclusivamente de homens, retinha os métodos de adivinhação então existente, que era o jogo de opelê e o jogo de ikins. Somente estes sacerdotes sabiam como adivinhar, somente eles conheciam os segredos das figuras oraculares, os Odu-Ifá.

Por mais que Osùn implorasse, seu esposo negava-se a ensinar-lhe o segredo do oráculo e, consciente de que não conseguiria mudar sua opinião, a Iyabá resolveu apelar para a astúcia, coisa que jamais lhe faltou.

Certo dia, por motivo qualquer, Orunmilá precisou empreender uma viagem para um local muito distante e seu retorno só ocorreria dentro de três meses. Esta era a oportunidade de que Osùn precisava para pôr em prática seu plano de apoderar-se dos segredos da adivinhação, mas restava ainda um grande obstáculo.

Toda vez em que Orunmilá viajava, deixava seus escritos, assim como seus instrumentos divinatórios, sob a guarda de Esù, em quem confiava cegamente.

- Salve Esù! – disse Osùn entrando na casa do Orisá.

- Ore Yeyê Oh! – respondeu Esù, reverenciando a poderosa senhora. – A que devo a honra de tão gratificante visita?

- Venho pedir-te um favor, Esù – disse Osùn, enquanto se acomodava sobre umas das esteiras estendidas no chão de terra batida. – Como bem sabes, dentro de pouco tempo todos os Orisás, por ordem de nosso pai, deverão retornar ao Orun, menos tu, que tens permissão para ficar onde bem entenderes.

-Sim, minha senhora, sei perfeitamente do que esta falando. Gostaria que me explicasse de que forma poderei ser útil – disse Esù, como se adivinhando alguma coisa.

- Pois é! Sabes também que, por ordem de Obatalá, criei um culto para todos os Orisás e, como não poderia deixar de ser, preparei um sacerdote humano para que, na minha ausência, o culto possa ter continuidade? - Perguntou Osùn.

- Sim, sei disto tudo – respondeu Elegbàra.

- Acontece, Esù, que a comunicação entre nós Orisás e os homens [e mulheres] ficará interrompida depois de nossa volta ao Orun. Assim sendo, como eles/as saberem nossos desejos e receber nossas orientações? – voltou a pergunta a Orisá, cheia de charme.

- Não creio que isto venha a representar problema – disse Esù. – Foi parta isto que Orunmilá preparou os seguidores de seu próprio culto, que, através da interpretação dos Odu-Ifá, estão aptos a transmitir a todos os seres humanos nossos desejos e determinações.

- Pois é ai que reside o problema! – afirmou Osùn, baixando a voz em tom de confidência. – O que meu marido pretende é centralizar o poder na mão dos seus seguidores. Da forma como ele organizou tudo, Esù, os cultuadores dos Orisás viverão sob a dependência dos sacerdotes de Orunmilá. Já pensou como o processo de manipulação por parte destes se acentuará através dos tempos?

- Bem... – ponderou Esù -.... se não houver honestidade e desprendimento...

- Que honestidade? – interrompeu Osùn. – Que desprendimento? Como podes esperar isto dos seres humanos imbuídos de poderes? Ainda mais dos sacerdotes do meu marido, os babalaôs, que são naturalmente cheios de orgulho e vaidade!

- Espere um pouco! –retrucou Esù. – Existem exceções!

-Claro que existem exceções. Mas são raras! Raríssimas! – falou Osùn inflamada.

-Muito bem. Só não sei aonde queres chegar – disse Esù. – Afinal de contas o que tenho eu a ver com isto?

- O que tens a ver? – perguntou Osún. – Tens tudo a ver! – respondeu ela mesma. – Preciso que me passes os segredos do jogo de Ifá. De posse deles, poderei transmiti-los ao meu sacerdote, que, por sua vez, os ensinará aos seus discípulos. Esta é a única maneira de evitar que o culto dos Orisás fique dependendo, eternamente, do culto de Orunmilá.

- E o que ganharei com isto? – perguntou Esù aguçado pela cobiça. – Bem sabes o quanto Orunmilá confia em mim. O fato de entregar-te os seus fundamentos irá custar-me não só a sua amizade, como, com certeza, uma bela punição.

- Peça o que quiseres! Dá teu preço que estou pronta a pagá-lo! – exclamou Osùn, certa de já haver obtido o que pretendia.

Se for assim, esta bem vá para casa que dentro de 70 dias lá estarei com o sistema divinatório e meu preço! – finalizou Esù.

Os dias nunca foram tão longos para Osùn, mas finalmente, no fim da tarde do dia marcado, chegou Esù, portando uma cabaça de tamanho médio enrolada em panos brancos.

-E então, Esù? Trouxestes a encomenda? Perguntou Osùn, sem disfarçar a ansiedade que a consumia.

-Sim! Respondeu Esù. – O que queres esta aqui nesta cabaça!

-Então anda, entrega-me! –suplicou a Iyabá.

- Calma Osùn! Primeiro vamos falar no pagamento! – falou Esù.

Neste momento Osùn abriu uma grande arca que ficava ao lado de seu trono e, levantando a tampa, mostrou a Esù um grande tesouro composto de muito ouro, pérolas e pedras preciosas de todos os tipos.

- Vai! – comandou a senhora. –Sirva-te à vontade!

- Calma, Senhora do Ouro! Não é este o meu preço! – disse Esù.

Não? – espantou-se Osùn. – E qual é teu preço, afinal?

- Todos os ebós que forem determinados pelo Oráculo que te estou entregando, do qual serei o mensageiro e o interlocutor! – sentenciou Esù. Estou te passando um novo sistema de adivinhação, diferente daqueles utilizados por Orunmilá. Desta forma ele não poderá acusar-me de roubo. Tu e teus seguidores adivinharão por intermédio do jogo de búzios, interpretando apenas os 16 Odus Meji. E serei eu, e somente eu, quem poderá falar neste jogo. Aceitas minhas condições?

Certa de que não haveria tempo para mais nada, Osùn resolveu aceitar, embora se sentisse lograda.

Desta forma, foi inventado o jogo de búzios, que pode ser acessado pelos seguidores do culto dos Orisás, ao passo que o opelê e o ikin são jogos de uso exclusivo dos sacerdotes de Orunmilá.

Osùn recebeu o jogo das mãos de Esù, ensinou-o ao seu discípulo, que o ensinou a todos os sacerdotes e sacerdotisas de Orisás que vieram depois dele.

É por isto que é Esù quem fala no jogo de búzios e todos os ebós são a ele destinados. Até mesmo quando algum sacrifício é exigido para os Orisá ou para os Eguns, uma pequena parte deve ser oferecida a Esù, que, como transportador de ebó, fará com que ele não atinja seu objetivo, se não for também agradado.

E foi assim que os sacerdotes [e sacerdotisas] do culto de Orisás obtiveram, através de Osùn e de Esù, o direito de adivinhar pelo mirindilogun. (In: MARTINS, Adilson. Lendas de Exu, Pallas, 2ª Edição. Rio de Janeiro-RJ, 2008. p.155 a 159)