Boas Vindas!!

MOJUBÁ !
Temos o intuito de incentivar e discultir textos sobre as religiões de matriz africana entre outras questões que envolve essa temática, também ter um espaço para divulgação da atividades da Egbé que alcança o Ilê Axé Sangó e o Centro Cultural Ébano Brasil.

sábado, 6 de agosto de 2011

                                                                                                        Babálòórisá João Bosco D’Sangó

    Ultimamente tem-se ouvido muito a palavra intolerância, tanto em se tratando das religiões de matriz africana, quanto em se tratando de outros assuntos, entre os quais orientação sexual.
        Paremos um pouco e vamos refletir acerca do verbo tolerar, de acordo com os dicionários da língua portuguesa esse verbo tem sinônimo de suportar. Portanto aquele/a que suportar algo ou alguém, o mesmo agüentar, resistir a; permite; aceita a. Assim sendo, tolerar nada tem a ver com respeito.
    Pressupomos que nós religiosos de matriz africana não precisamos ser tolerados/as e sim respeitados/as na nossa forma de crer, louvar e reverenciar nossos/as antepassados/as.
    Basta de lutar por tolerância religiosa, o que verdadeiramente temos que levantar bandeira é a favor do respeito incondicional às diversas formas de crer existente em nosso país, entre as quais nós afro-religiosos/as.
    O século XXI é tido como o século da concórdia e da busca de relações humanas harmoniosas e equitativas. Observando por esse aspecto ressalvamos a importância de nós afro- religiosos/as buscarmos não uma sociedade que nos tolere, e sim que nos respeite como herdeiros de cresças ancestres passada de geração a geração através da tradição oral.
    Para tanto, aproveitamos esse meio de comunicação para afirmar
com muita sinceridade que nossa luta diária enquanto praticante de religião de matriz africana, especialmente o candomblé de Nação Ketú é a busca incansável de conhecimento e sabedoria para nós deixarmos nos sucumbir diante de tantas adversidades que o dia-a-dia nos colocar. Ler, pesquisar, debater e aprender com os mais velhos deve fazer parte de nossa cultura religiosa. E olha que esse último item é um desafiador para todos/as nós, visto que somos frutos de uma sociedade que não respeita os/as mais velhos/as. Portanto, demonstrar valores éticos, postura moral, sem contudo ser moralista ou moralizante deve ser regra fundamental para sacerdotes e sacerdotisas afro. Pois, tais pessoas são vistas como modelos a serem seguidos. E qual o futuro terão as religiões de matriz afro se os/as lideres não fazerem de tudo para manter vivas as tradições e os respeito a tudo que nos foi passado pelos nossos/as ancestrais?
    Não devemos ser contra as inovações, visto que as religiões de matriz afro sempre se demonstraram como uma grande vanguarda em nosso país, porém o que não devemos suportar são regras para acomodar esta ou aquela pessoa em conformidade com a ocasião ou coisa e tal. Macular fundamentos básicos é matar o que mais se procura preservar em nossa religião.
    Por se falar em vanguarda é inegável que nossas casas, templos, roças, egbé, ilê asé desde os primórdios respeitou-se as diversas orientações sexuais presentes no espaço de asé. Porém, isso não nos da o direito como religiosos/as de querem brincar de Olodumaré. Homens serão sempre homens, e mulheres será sempre mulheres, independente da orientação sexual dos/as mesmos/as. Os/as Orisás nos respeita como somos, porém o que se torna abominável, por exemplo, iniciar um homem porque ele é homossexual para o cargo de Yarobá ou uma mulher para o cargo de Ogã, porque ela é lésbica. São dessas inovações entre outras que estamos referindo que maculam nossos/as antepassados/as. E isso não isso nada tem a ver com homofobia. O que esta se ressalvando são os valores essenciais das religiões afros, a saber homem nasce com essência e asé de homem e mulher nasce com essência e asé de mulher, e isso independe de sua orientação sexual. Com outras palavras um homem nunca poderá ser mãe e uma mulher jamais poderá ser pai. Mesmo que alguns/mas assim queira.
    Portanto o respeito a todos os gêneros e todas as orientações sexuais em uma casa de asé é salutar, sem, contudo querer modificar aquilo que é mais sagrado para as religiões afro – A vontade de Olodumare.
    O primeiro artigo desde mês corresponde à primeira parte do capitulo 08 da obra A alma africana no Brasil – os Iorubás, da pesquisadora Ronilda Iyakemi Ribeiro, neste fragmento de texto ela discute sobre o nascimento e a morte e sobre práticas religiosas na Nigéria e consecutivamente para nós praticantes de Candomblé de Nação ketu. De uma forma geral neste artigo a autora chama atenção para arte do bem viver para merecer uma morte também agradável.
    Já o segundo artigo catado do site www.orixas.com.br , faz-se reflexões acerca do termo yorubá asé, vocábulo muito usado entre os praticantes de Candomblé de Nação Ketu. De certa forma o artigo desvenda o significado do termo, bem como em que momento usar tal palavra.
    A lenda do mês faz alusão a sobre os fatores que fizeram de Sangó o Orisá da justiça.
    Entre outras datas o mês de agosto (13/1986), dia é marcado pela morte física da Iyálorisá Maria Escolástica da Conceição Nazaré, mais conhecida como Menininha do Gantois. Foi a quarta Iyálorisá do Ilê Iyá Omi Axé Iyamassê (Terreiro do Gantois) é considerada a mais famosa de entre todo as  afro-sacerdotisas brasileiras. Descendente de escravos africanos, aos 29 anos foi escolhida para ser líder do Ilê Iyá Omi Axé Iyamassê. Ao seu tempo lutou arduamente pelo reconhecimento e respeito do candomblé, em um momento em que tal religião era perseguida pelas autoridades policiais. Faleceu aos 92 anos de idade de morte natural.
    Aproveitamos a oportunidade para agradecer a todos que se fizeram presentes nas comemorações ocorridas no dia 30 de julho do corrente ano.
Com referência às atividades do mês são as seguintes:
        06 de agosto – das 15 às 18 horas (Sábado) –  Reunião Interna;
          07 de agosto (Domingo) – Almoço de Confraternização;
         13 de agosto– das 15 às 18 horas (Sábado)- Atendimento ao Publico.
     14 de agosto (Domingo) – Café da Manhã Fraterno com todos/as membros da Egbé Òní Omorisá Sangó;
         20 de agosto (Sábado) - Projeto Discutindo Candomblé Ketú.

    Sinceramente esperamos que os escritos do mês de agosto como todos outros meses possam contribuir minimamente com o avançar do conhecimento da Religião dos Orisás. Para tanto desejamos a todos/as boa leitura e um excelente mês.
     Abraços Fraternos

Dimensão Espiritual e Práticas Religiosas

Por Ronilda Iyakemi Ribeiro

    Para o africano, o universo visível é concebido como concretização ou envoltório de um universo invisível, de forças em contínuo e eterno movimento. Vimos também que todas as condutas incluem relações com seres da dimensão supra-sensível.             A participação na trama social, cujo início coincide com o nascimento e cujo término coincide com a morte, é tida como uma parte da existência global do homem, ser oriundo da dimensão espiritual à qual retornará após a morte. Nascimento e morte incluem-se entre tantos outros acontecimentos críticos da existência e são marcados por ritos de passagem.
    Cada ser humano que chega ao mundo, como um mensageiro da “outra dimensão”, manifesta o sagrado, não sendo visto apenas como produto dos pais. Recebido com respeito, seu nome deve ser descoberto e não inventado. Pronunciá-lo é saudar esse ser celeste e convidá-lo para habitar a sociedade dos homens. (Erny, 1968:68)
    Antes do nascimento da criança seus pais consultam o oráculo para conhecerem a procedência espiritual do filho e ao educá-lo levam em consideração que ao educador é reservada a tarefa de favorecer o processo de saída da borboleta de sua crisálida e de zelar para que não seja sufocada antes de ver o dia. Consideram que não é o educador que cria a borboleta com suas belas cores. Estas chegam até ele de longe, refletem a passagem através do cosmos. Traz muito mais do que o educador poderia lhe oferecer. Renova os que a recebem, os rejuvenesce, restaura, regenera. (p. 82)
O retorno ao mundo numinoso, à dimensão espiritual ocorre por ocasião da morte. Iku, a morte, símbolo masculino associado ao mito da gênese do ser humano, restitui à terra o que lhe pertence, agindo pois, como instrumento indispensável de restituição e de renascimento.
    A passagem pela morte física é marcada por ritos fúnebres
complexos, de importância fundamental para o bem-estar do ser em sua nova condição de existência20. O ser que cumpre integralmente seu ipin ori (destino do ori), amadurece para a morte e, recebendo ritos fúnebres adequados, alcança a condição de ancestral ao passar do aiye para o orun. Em outras palavras, a pessoa somente alcança a posição de ancestral se vive uma boa vida, tem boa morte em idade avançada e recebe ritos fúnebres adequados. Considera-se boa vida a conduzida segundo princípios morais, ocupando o caráter pessoal posição de relevância nessa conquista. Segundo Dopamu (1990), o homem em sua luta constante contra o mal – situado fora e dentro de si mesmo - tem por couraça o próprio caráter. Boa vida é a conduzida segundo os princípios de um bom caráter, que privilegiam interesses de ordem grupal em relação aos individuais. Boa morte é a natural, ocorrida em idade avançada, não sendo consideradas boas mortes, a do suicida, do acidentado, do afogado, do louco, do leproso, de crianças, jovens, mulheres grávidas e mulheres ao dar à luz.
        Muitos podem ser os destinos após a morte: o espírito pode reencarnar depois de algum tempo, de acordo com um plano divino, efetuando um reencarne legítimo. Pode também, reencarnar de modo ilegítimo ou ilegal - ocupando um corpo de embrião que não está sendo formado para ele: o verdadeiro dono do corpo é expulso e o usurpador ocupa seu lugar por toda a encarnação. Algumas pessoas crêem que o outro mundo é neste planeta mesmo – os que morrem em determinado lugar passam a viver em outro, permanecendo ainda na terra, às vezes com o mesmo corpo. Tais pessoas, chamadas aku-da-aya, levam vida normal em seus novos locais de moradia, trabalhando, casando e tendo filhos. Invisíveis aos olhos de parentes e amigos, permanecem em outra localidade até o momento de morrer novamente ou até que ocorra um fato determinante de nova mudança de lugar, em condições análogas. Os aku-daaya são reconhecíveis por viverem longo tempo numa comunidade sem falar a respeito da própria origem e sem receber visitas. Outras pessoas crêem que enquanto os prematuramente mortos continuam vagando na terra, os de idade avançada rumam para o mundo espiritual.
    Outros ainda, afirmam que pessoas más ou que sofreram má morte não encontram lugar no mundo espiritual, necessitando prolongar suas vidas na terra. Fantasmas dessas pessoas podem ocupar corpos de animais, répteis, pássaros ou árvores, por não encontrarem lugar para si no mundo espiritual.
        Há, ainda, a crença na existência de duas áreas ocupadas por espíritos de mortos: orun rere - o bom céu, habitado pelas divindades e ancestrais e orun apaadi - o céu de muitas infelicidades, habitado pelos infelizes que sofreram má morte e pelos maus, julgados pelo Ser Supremo, segundo seu caráter. Terrível é o destino destes últimos: sem desfrutar da companhia dos ancestrais, sem direito à reencarnação nem à lembrança, ficam condenados à solidão e ao esquecimento. A eles não é reservado sequer o direito de aparecerem em sonhos ou visões. Morrem totalmente. Orun rere, por outro lado, é sereno e prazeroso. Vivendo ao lado dos ancestrais, sendo um deles, podem permanecer junto aos familiares, intervindo em suas atividades diárias. Também lhes é permitido reencarnar em alguma criança do âmbito
familiar. A vida no orun rere é de interminável companheirismo, numa comunidade composta de parentes e amigos.
    Os ritos fúnebres podem variar segundo a religião professada pela família do falecido, mas a festa fúnebre é tradição respeitada por todos. Se a pessoa morre em idade avançada é homenageada com grandes festas que, realizadas na rua ou ruas próximas à casa, chegam a reunir mais de quinhentos convidados. Havendo condições econômicas, a família contrata cantores. Caso contrário, aluga aparelhos de som. A festa tem início após o enterro, no dia seguinte ao da morte e pode durar até vinte e quatro horas, com comida farta, bebida abundante e muita dança. No terceiro dia após a morte, a família prepara bastante akara e distribui aos amigos na rua. No oitavo e quadragésimo dia repetem-se os festejos, sendo o último e mais grandioso, denominado Festa Final. A má morte não é festejada. Exceção única a isso, constitui a festa por ocasião da morte dos velhos, qualquer que tenha sido suacircunstância.
    Muitos enterros são realizados na área externa da casa - na frente, ao lado ou no quintal dos fundos. Construído o túmulo, o morto é ali enterrado e ali permanece, perto de seus familiares. Em sua proximidade brincam as crianças, ciscam as galinhas e desenvolve-se a rotina doméstica. Elbein dos Santos (1986) ouviu, entre os babalaôs da Nigéria, descrições do orun como sendo composto de nove espaços. Ifatoogun, de Osogbo, um dos sacerdotes versados nos mistérios oraculares, descreveu os nove espaços do orun como superpostos, coincidindo o espaço central com a terra, permanecendo quatro abaixo e quatro acima dele. Os nove compartimentos formam um todo, unem-se através do opo-orun oun aiyé, pilar que liga o orun ao aiye.
    Na prática da Religião Tradicional Iorubá os cultos são regulares e deles faz parte o sacrifício - alimentos, bebidas, animais, legumes e frutas – orientado pelo oráculo e realizado em obediência às preferências alimentares e tabus das divindades homenageadas. (RIBEIRO, Ronilda Iyakemi. Alma Africana no Brasil- Os iorubas. Salvador-BA, Ed. Oduduwa,1996.p. 58 a 59)

A PALAVRA AXÉ (ASÈ)

           Para o yorùbá, o verbo mais importante é realizar. Um homem [e/ou uma mulher] vem a Ilu Aiye, o Planeta Terra, para realizar, para fazer algo, para deixar sua marca e sua lembrança. É assim que ele [e/ou ela] será recordado [a] por sua descendência, através de suas realizações.
        Nada é feito sem o apoio dos Òrìsà, porque é através da força que flui deles para nós que esta realização ocorre.
        Ase significa isso: Awa - nós / se - realizar. Ase, nós realizamos, com a ajuda, a força e o poder de nossa crença nos Òrìsà e nos nossos Ancestrais.
        Hoje esta nossa palavra de significado mágico se banalizou, virou música chula, de bom ritmo e de forte apelo sexual. Para muitos, Ase é dançar com pouca roupa, "colocando a mão aqui e passando a mão ali, sentando na garrafa e mexendo o que não deve".
        E uma palavra sagrada, tão importante quanto Amem, Inshallah, Maktub, Aleluia, Salam, Shalon, Om Shanti, Assim Seja e tantas outras, em tantas línguas, está por aí desvirtuada, destituída de seu significado religioso, servindo de apelo comercial e chamariz sexual.
        Conclamamos os Sacerdotes [e sacerdotisas] afro descendentes a sair em campo esclarecendo, defendendo, e se reapossando de nosso Ase!
        Que volte a encerrar as nossas bênçãos, as nossas preces, que aquele que ouvir a palavra Ase sinta-se abençoado e pleno de graça. Que um homem[e/ou mulher] de Ase seja um Sacerdote[e/ou Sacerdotisa] e não um símbolo sexual.
        Que uma viagem de Ase seja uma visita à Terra Mãe África e não alguns dias de carnaval na Bahia. Que todo brasileiro, independente de sua opção religiosa, tenha muito Ase! E, para encerrar, Ase .. Ase .. Ase .
(...)
        O idioma yorubá, se bem que ligeiramente alterado, como é natural pela dinâmica da evolução, permanece sem mudanças palpáveis a nível do significado das palavras. O modo de se falar o yorubá é sempre o mesmo, várias palavras juntas formam um significado diferente. Tomemos, por exemplo, os nomes próprios. Obalade, nome comum em famílias de origem real, que significa - Oba:Rei; ni: ter, ser (que a frente de uma vogal transforma-se em l); ade: coroa.
        Temos então uma palavra que ao mesmo tempo é uma frase: Obalade - O Rei tem coroa, O Rei é coroa (realeza).
        Um pouco estranho para um ocidental, mas para nós, yorubá, perfeitamente lógico e simples. Asé, palavra mágica, significa: Nós realizamos. Pode, pelo seu poder de ofo (magia que sai da boca do ser humano preparado para dizê-la), ser usada para desejar boas coisas, como saúde, felicidade, dinheiro, amor, alegria, paz, vida, sabedoria. Mas o idioma yorubá dispõe de palavras próprias para todos esses dizeres, que são aláfia, owo, ifé, ayó, laja, aiye, imoye.
        Se os[as] sacerdotes [sacerdotisas] mais velhos[as] não conhecem essas palavras diferenciadas, e ensinaram a seus filhos que todos os bons desejos se resumem na palavra Asé, sugerimos que reflitam que isso pode gerar conflitos, como vêm gerando, com sacerdotes [e sacerdotisas] não só do Candomblé Ketu, que usa o yorubá como língua mãe, mas até com os de Candomblé Angola e Jeje, que originalmente não deveriam ter o yorubá como referência linguística.
        Asé, palavra yorubá, significa: Nós realizamos, e não podemos mudar a semântica da palavra, alterar a semiótica do idioma yorubá apenas para agradar teimosos que insistem em discutir publicamente seu significado, usando o batido argumento que: “Em 1978, meu Pai me ensinou assim, então é assim e não vou admitir outro significado. O yorubá da África é errado, certo era o do meu Pai”. Tradição de Orisa e Candomblé Ketu são religiões diferentes. Enquanto alguns Pais brasileiros lutam por manter a inércia religiosa, a Tradição de Orisa evolui. Asé!
www.orixas.com.br

Xangô é reconhecido como o Orixá da justiça

           Xangô e seus homens lutavam com um inimigo implacável. Os guerreiros de Xangô, capturados pelos inimigos, eram mutilados e torturados até a morte, sem piedade ou compaixão. As atrocidades já não tinham limites.
        O inimigo mandava entregar a Xangô seus homens aos pedaços. Xangô estava desesperado e enfurecido. Foi então que Ele subiu no alto de uma pedreira perto do acampamento e dali consultou Orunmilá. Irado começou a bater nas pedras com seu machado de dois corte – o Oxé. O machado arrancava das pedras faíscas, que acendiam no ar famintas línguas de fogo, que devoravam os soldados inimigos. Assim a guerra perdida foi se transformando em vitória.
        Xangô ganhou a guerra. Os chefes inimigos que haviam ordenado o massacre dos soldados de Xangô foram dizimados por um raio que o mesmo disparou no auge da fúria. Mas os soldados inimigos que sobreviveram foram poupados por Xangô. A partir daí, o senso de justiça dele foi admirado e cantado por todos [as]. Através dos séculos, os Orixás, os homens e as mulheres têm recorridos a esse Orixá para resolver todo tipo de pendência, julgar as discordâncias e administrar a justiça. (PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás. Cia das Letras. São Paulo-SP, 2001. p.245)

quinta-feira, 30 de junho de 2011

A EGBÉ ESTÁ EM FESTA

Babálòórisá João Bosco D’Sangó

     Este mês a Egbé Òní Omorisá Sangó e Associação Cultural Ébano Brasil comemora um ano de existência, como ainda um ano de sacerdócio do Babalòorisá João Bosco d’ Sangó, líder desta Ilé Asé, e um ano de iniciação de Iandra Moraes d’Osun, Hungbona da Casa de Sangó.
     Foi um ano de intensas atividades para todos/as que fazem parte desta família, afinal manter uma Ilê Asé em funcionamento em uma cidade como Cuiabá, que é profundamente preconceituosa, na qual a intolerância religiosa está presente, se torna desafiador. Porém, na crença de que tudo que fazemos, fazemos graças a Olodumare e aos Orisás, procuramos fazer o melhor. Afinal, nada fazemos em nosso nome e sim pelos e para os Orisás, como também por manter viva e dinâmica uma cultura que com a diáspora negra para as Américas, está presente em nosso país, porém é profundamente mal interpretada não só em Cuiabá, mas em todo Brasil.
     Entretanto, desanimar não faz parte de nós, afrodescendentes. A exemplo de nossos antepassados que jamais baixaram a cabeça, hoje somos nós que devemos nos empenhar na preservação dessa cultura milenar.
     A luta por uma sociedade que respeite as diversas formas de crer e louvar, deve fazer parte de todos/as nós que acreditamos que negros e afrobrasileiros contribuíram e contribuem para a formação sócio-cultural desta imensa nação. Especialmente em se tratando de religiões e religiosos/as de matriz africana.
     É inegável que a sociedade brasileira tem uma dívida monstruosa com todos/as aqueles/as que com força, garra, persistência e singularidade, de tudo fizeram e continuam fazendo para edificar o Brasil.  
     Em se tratando da Egbé Òní Omorisá Sangó e Associação Cultural Ébano Brasil é inegável que foi um ano de muita luta e persistência, pois muito já fizemos, porém tem-se muito ainda por fazer. Cremos que com a ajuda de Olodumare e sua corte de Orisás faremos o melhor para o bom desenvolvimento da mesma.
   No primeiro dia deste mês comemoraremos o aniversário natalício
da Yarobá Ângela d’ Osun.  Pessoa que tem um papel de profunda relevância nesta Egbé, por isso rogamos a todos/as Orisás que lhe dê vida longa com muita saúde, sucesso profissional e amoroso. Que Osún esteja sempre presente em todos os momentos de sua vida. Harmonia, equilíbrio, paz, prosperidade, asé e muitas alegrias na vida é o que nós lhe desejamos.
     Neste mês continuaremos apresentando mais um capítulo da obra da pesquisadora Ronilda Iyakemi Ribeiro, Alma Africana no Brasil- Os ioruba. Trazemos o capítulo 07 que se intitula: Noção de Pessoa: Concepção Iorubá de Natureza e Destino Humano. Esse texto nos evidencia o significado teológico de Asé entre os yorubás, bem como a noção de destino e a importância do oráculo de Ifá para esse povo.
       Já no segundo texto o Bábáòlòòrisa da Ègbé Òmó Oní Odé, em Campo Grande, Edson Fernandes enfatiza a importância da escolha de sacerdotes e sacerdotisas com boa formação religiosa para não haver arrependimentos futuros. Visto que, a má escolha poderá em tempo vindouro ocasionar descrédito na religião da qual o fiel escolheu para sua vida. O mesmo ressalta que a fé sem conhecimento se torna algo alienante.
A lenda do mês explica o porquê que os omorisás Sangó não devem comer carne suína.
             Com referência ao calendário de atividades da Egbé Òní Omorisá Sangó deste mês destacamos: 

 Dia 02 de julho (Sábado) das 15 às 17 horas – Atendimento Público;
 Dia 09 de julho – Participação de Festa em Honra a Babá Orisá Sangó e Ya Orisá Oyà na Egbé Òmó Òní Odé – Campo Grande – MS;
 Dia 16 de julho - (Sábado) das 15 às 17 horas – Projeto Discutindo Candomblé Ketú.
 Dia 23 de julho - (Sábado) das 15 às 17 horas - Projeto Discutindo Candomblé Ketu;
Dia 30 de julho – (Sábado) Festa em Honra a Babá Orisá Sangó; Comemoração de um ano da Egbé Òní Omorisá Sangó e do CENTRO Cultural Ébano Brasil; Obrigação de um ano de Iandra d’Osun (Hungbona)

Desejamos a todos/as um mês de alegria, sucesso e harmonia, e que os artigos deste postados sirva para o crescimento pessoal de cada um e cada uma que lerem e refletirem sobre os mesmo.
Abraços Fraternos

NOÇÃO DE PESSOA: CONCEPÇÃO IORUBÁ DE NATUREZA E DESTINO HUMANOS

  
Por Ronilda Iyakemi Ribeiro

A respeito do axé
Para discorrer a respeito da natureza e destino humanos é interessante iniciar esclarecendo o significado de axé, nome dado pelos iorubás à força vital. Segundo Maupoil (citado por E. dos Santos, 1986) axé é a força invisível, a força mágico-sagrada de toda divindade, de todo ser animado, de toda coisa. Não aparece espontaneamente. Precisa ser transmitida. Qualquer chance de realização na existência depende do axé que, enquanto força, obedece a algumas leis: (1) é absorvível, desgastável, elaborável e acumulável; (2) é transmissível através de certos elementos materiais, de certas substâncias; (3) uma vez transferido por essas substâncias a seres e objetos, neles mantém e renova o poder de realização; (4) pode ser aplicado a diversas finalidades; (5) sua qualidade varia segundo a combinação de elementos que o constituem e que são, por sua vez, portadores de uma determinada carga, de uma particular energia e de um particular poder de realização. O axé dos orixás, por exemplo, é realimentado através de oferendas e de ação ritual, transmitido por intermédio da iniciação e ativado pela conduta individual e ritual; (6) pode diminuir ou aumentar.
O axé encontra-se numa grande variedade de elementos do reino animal, vegetal e mineral. Encontra-se em elementos da água doce e salgada e da terra. Acha-se contido nas substâncias essenciais de seres animados ou não. Elbein dos Santos (1986) apresenta uma classificação do axé em categorias: sangue vermelho, sangue branco e sangue preto. No reino animal o sangue vermelho compreende o sangue propriamente dito, animal e humano, aí incluído o fluxo menstrual; no reino vegetal, inclui o epo, azeite de dendê, o osun, pó vermelho extraído de pterocarpus erinacesses e o mel, sangue das flores. Quanto ao sangue branco, incluem-se, no reino animal, o hálito, o plasma, o sêmen, a saliva, o suor e outras secreções; no reino vegetal, a seiva, o sumo, o álcool e as bebidas brancas extraídas de palmeiras e de alguns vegetais, o ori, manteiga vegetal e o iyerosun, pó esbranquiçado extraído do irosun; no reino mineral, os sais, o giz, a prata, o chumbo, etc. O sangue preto compreende, no reino animal, as cinzas de animais; no vegetal, o sumo escuro de certas plantas, o ilu, índigo extraído de diferentes tipos de árvores, pó azul escuro chamado waji; no reino mineral, o carvão, ferro, etc.
Para poder atuar, o axé deve ser transmitido através de uma combinação particular que contém representações materiais e simbólicas do branco, do vermelho e do preto, do aiye e do orun, competindo ao oráculo a definição da composição necessária do axé a ser implantado ou restituído.
O sangue - animal, vegetal ou mineral - é substância indispensável para a restauração da força. Todo ritual, seja uma oferenda, um processo iniciativo ou uma consagração, realiza implante da força ou revitalização. O que vive, para poder realizar-se ou realizar, precisa de axé e, não sendo a fonte inesgotável, a reposição se faz necessária e é obtida através da prática ritual que reatualiza a força do tempo primordial, tempo da criação. A importância da regularidade dos ritos reside no fato de que a presença das entidades sobrenaturais é favorecida pela atividade ritual, ocasião privilegiada da transferência e redistribuição do axé.
Este, oriundo das mãos e do hálito dos mais antigos, na relação interpessoal, é recebido através do corpo e atinge níveis profundos, incluídos os da personalidade, através do sangue mineral, vegetal e animal das oferendas.

A respeito da natureza humana
A pergunta quem é o homem? tem por resposta: é a mais importante das criaturas de
Deus. Para os iorubás, ao Eu transcendental, intangível e invisível associam-se componentes de ordem material formando um corpo tangível e visível e outros componentes de ordem imaterial, intangível e invisível. O ser humano é descrito como constituído dos seguintes elementos: ara, ojiji, okan, emi e ori.
Ara, o corpo físico, constitui a casa ou templo dos demais componentes. Ojiji - o fantasma humano - é a representação visível da essência espiritual e acompanha o homem durante toda sua vida. Quando ara perece, ojiji também perece, embora somente ara seja enterrado. Ojiji pode ser traduzido por sombra. Okan, literalmente coração ou coração físico, intimamente conectado ao sangue, representa o okan imaterial, sede da inteligência, do pensamento e da ação. Emi, o princípio vital, associado à respiração, não se reduz a ela. É o sopro divino e, ao morrer o homem, diz-se que Emi partiu. Significa também, espírito ou ser. Uma das denominações de Deus é Elemii, Senhor dos Espíritos. Ori, a essência real do ser, guia e ajuda a pessoa desde antes do nascimento, durante toda a vida e após a morte.     O sentido literal de ori é cabeça física, símbolo da cabeça interior - ori inu. Deus é chamado também Oris e, fonte da qual originam-se os seres. Todo ori, embora criado bom, acha-se sujeito a mudanças. Feiticeiros, bruxas, homens maus e a própria conduta podem transformar negativamente um ori, sendo sinal dessa transformação uma cadeia interminável de infelicidades na vida de um homem a despeito de seus esforços para melhorar. O ori, entidade parcialmente independente, considerado uma divindade em si próprio, é cultuado entre outras divindades, recebendo oferendas e orações. Quando ori inu está bem, todo o ser do homem está em boas condições.

A respeito do destino humano

Recorrendo ao mito encontramos uma boa expressão das crenças iorubás a respeito do destino humano: Oxalá e Ijalá são as divindades modeladoras dos ori. Cada ser criado escolhe livremente o próprio ori e o próprio Odu - signo regente de seu destino. Ijalá, embora notável em sua habilidade, não é muito responsável e, por isso, muitas vezes modela cabeças defeituosas: pode esquecer de colocar alguns acabamentos ou detalhes necessários, como pode, ao levá-las ao forno para queimar, deixá-las por tempo demasiado ou insuficiente. Tais cabeças tornam-se, assim, potencialmente fracas, incapazes de empreender a longa jornada para a terra, sem prejuízos. Se, desafortunadamente, um homem escolhe uma dessas cabeças mal modeladas, estará destinado a fracassar na vida. Durante sua jornada para a terra, a cabeça que permaneceu por tempo insuficiente ou demasiado no forno, poderá não resistir à ação de uma chuva forte e chegará mais danificada ainda. Todo o esforço empreendido para obter sucesso na vida terrena terá grande parte de seus efeitos desviada para reparar tais estragos. Pelo contrário, se um homem tem a sorte de escolher uma das cabeças realmente boas, tornar-se-á próspero e bem sucedido na terra, uma vez que sua cabeça chega intacta e seus esforços redundam em construção real de tudo aquilo que se proponha a realizar. O trabalho árduo trará ao homem afortunado em sua escolha, excelentes resultados, já que nada é necessário dispender para reparar a própria cabeça. Assim, para usufruir o sucesso potencial que a escolha de um bom ori acarreta, o homem deve trabalhar arduamente. Aqueles, entretanto, que escolheram um mau ori têm poucas esperanças de progresso, ainda que passem o tempo todo se esforçando.
A forma ou tamanho de uma cabeça nada informa a respeito de suas potencialidades. Como saber se a escolha feita foi boa ou má? Pode um homem conhecer as potencialidades da própria cabeça ou da cabeça de outrem? Os fundamentos para a resposta a essa pergunta, encontram-se em outro mito: Ao atravessar o portal que conduz do céu à terra, o porteiro do céu - Onibode orun, pede ao homem que declare seu destino. Este é então selado e, embora a lembrança disso se apague no homem, Ori retém integralmente a memória de tudo. Baseado nesse conhecimento guia seus passos na terra. A única testemunha do encontro entre Ori e Onibode orun é Orumilá, uma das divindades primordiais, o deus da sabedoria. Por isso Orumilá conhece todos os destinos humanos e procura ajudar os homens a trilhar seus verdadeiros caminhos. Nos momentos de crise, a consulta ao oráculo de Ifá permite acesso a instruções a respeito dos procedimentos desejáveis, sendo considerados bons procedimentos os que não entram em desacordo com os propósitos do ori. Ifá é outro nome de Orumilá.
A respeito do ori, resta ainda lembrar que trata-se de uma divindade pessoal, a mais interessada de todas no bem-estar de seu devoto. Se o ori de um homem não simpatiza com sua causa, nada poderá ser feito por outra divindade. Assim, o que ori não sanciona, não pode ser concedido nem por Olodumare, nem pelos orixás. Alguns poemas divinatórios de Ifá, registrados por Abimbola (1976), dizem:
Somente o Ori é quem pode seguir seu devoto a qualquer parte sem retornar. Se tenho dinheiro, renderei graças a meu Ori. Se tenho crianças na terra, é a meu Ori que devo render graças. Por todas as boas coisas que tenho na terra Deverei render graças a meu Ori. Ori, eu o saúdo! Você que não esquece seus devotos, Que os abençoa mais rapidamente que as outras divindades. Nenhuma divindade abençoa um homem sem o consentimento de seu Ori. Ori, eu o saúdo. Você que possibilita que as crianças nasçam vivas. Uma pessoa cujo sacrifício é aceito por seu Ori deve exultar imensamente. Verdadeiramente, todos os desejos de meu coração revelarei a meu Ori. O Ori de um homem é seu simpatizante.  Meu Ori, salva-me! Você é meu simpatizante!
Muitas referências são feitas às relações entre o ori e o destino pessoal. O destino, descrito como ipin ori - a sina do ori - pode sofrer alterações em decorrência da ação de pessoas más chamadas omo araye - filhos do mundo, também chamadas aye - o mundo ou ainda, elenini - implacáveis (amargos, sádicos, inexoráveis) inimigos das pessoas. Entre estes encontram-se as aje - bruxas, os oso - feiticeiros, os envenenadores e todos aqueles que se dedicam a práticas malignas com o intuito de estragar qualquer oportunidade de sucesso humano. Se seu inhame é branco, cubra-o com a mão enquanto come porque Aje não quer que ninguém prospere. O bem-estar e os sucessos devem ser escondidos dos olhares para não tornarem-se alvo de ataques malignos.
O destino também pode ser afetado, de modo adverso, pelo caráter da própria pessoa. Um bom destino deve ser sustentado por um bom caráter. Este é como uma divindade: se bem cultuado concede sua proteção. Assim, o destino humano pode ser arruinado pela ação do homem. Iwa re laye yii ni yoo da o lejo - Seu caráter, na terra, proferirá sentença contra você.
Sendo estes os pressupostos, retomamos as perguntas: como saber se a escolha do próprio ori foi boa ou má? Pode um homem conhecer as potencialidades da própria cabeça ou da cabeça de outrem? O jogo divinatório de Ifá possibilita que a pessoa tome conhecimento dos desígnios do próprio ori, saiba a respeito do orixá ou irunmale que deve ser cultuado e conheça seus ewo - proibições quanto ao consumo de alimentos, uso de cores e condutas morais.
As divindades, incluindo Orumilá, fazem uso de recursos divinatórios para conhecer os desejos do próprio ori. Suas vidas, também regidas por seus ori beneficiam-se da consulta a Ifá. É através de Orumilá, o porta-voz dos orixás, que se pode conhecer os desejos das divindades, incluindo-se entre elas, a divindade pessoal - o ori. Enquanto porta-voz do ori, Orumilá é considerado eleri ipin - testemunha da escolha humana de destino. Considera-se vital para todo homem recorrer a Ifá, sistema divinatório de consulta a Orumilá, a intervalos regulares, para tomar conhecimento do que agrada ou desagrada o próprio ori. Enquanto intermediário entre a pessoa e as divindades (entre as quais o próprio ori), Ifá não apenas informa sobre os desejos divinos mas também conduz os sacrifícios ofertados às divindades para que estas possam cumprir seu papel: ajudar os ori a conduzirem as pessoas à realização do próprio destino. O mesmo é válido para os orixás, ou seja, as divindades encontram-se, como os homens, em processo de evolução e necessitam de orientação superior para prosseguirem em seu caminho.
Como se crê que o ori dos pais traz boa fortuna aos filhos, é comum a recomendação do oráculo no sentido de que sejam feitas ofertas sacrificiais ao ori dos pais e estes, ao orarem pelos filhos, apelam ao próprio ori: Ori mi a sin o lo - Possa meu ori ir com você ou Possa meu ori guiá-lo e abençoá-lo. Analogamente, o ori de uma pessoa tem condições de proteger, ajudar ou, ainda, prejudicar outras pessoas.
O recurso divinatório de Ifá, associado ao culto de Orumilá, é o mais desenvolvido dos sistemas divinatórios iorubás. Fazendo uso do obi de quatro partes, do opele, de areia, água, búzios, ikin, etc. Ao ser feita a consulta ao oráculo de Ifá, a queda dos dezesseis frutos de palmeira chamados ikin ou do opele, a corrente divinatória, define determinada configuração.
De 16 figuras básicas e 256 derivadas chamadas Odu, decorrem 4096 variantes possíveis, cada qual com seu nome. A cada configuração corresponde uma série de parábolas, significativamente coincidentes (sincrônicas) com a circunstância existencial do consulente. A conduta do(s) herói(s) da parábola, sugere o procedimento adequado para a superação da crise e realização do próprio destino. (RIBEIRO, Ronilda Iyakemi. Alma Africana no Brasil- Os iorubas. Salvador-BA, Ed. Oduduwa,1996.p. 51 a 56)